
O ar em Araxá, Minas Gerais, na última sexta-feira, vibrava com a energia contagiante do conhecimento e da criatividade. O 13º Festival Literário Internacional de Araxá, o aclamado Fliaraxá, entrava em seu terceiro dia, consolidando-se mais uma vez como um farol cultural, um espaço de efervescência intelectual e um convite irrecusável à descoberta de novas histórias. Longe de ser apenas um evento pontual, o Fliaraxá representa um compromisso contínuo com a formação de leitores, a valorização da produção literária em suas diversas formas e a promoção de diálogos essenciais para a sociedade contemporânea. Naquele dia específico, a programação desenrolou-se como um rio caudaloso, mesclando a leveza da literatura infantojuvenil com a profundidade dos debates nacionais e internacionais, sem esquecer a força e a autenticidade das vozes regionais.
Desde as primeiras horas da manhã, o Teatro CBMM, um dos palcos principais do festival, já fervilhava com a presença de mentes jovens. A escritora Lavínia Rocha, com sua sensibilidade e habilidade em conectar-se com o universo adolescente, abriu as atividades, direcionando seu encontro a estudantes entre 13 e 18 anos. Essa iniciativa sublinha um dos pilares fundamentais do Fliaraxá: a crença inabalável no poder transformador da leitura na juventude. Ao longo de todo o dia, a curadoria do festival demonstrou um olhar atento para o público infantojuvenil, oferecendo mesas de bate-papo dinâmicas, sessões de contação de histórias que transportavam os pequenos a mundos mágicos e apresentações lúdicas e educativas. Essas atividades não apenas divertem, mas também plantam as sementes da curiosidade, do pensamento crítico e do amor pelos livros, elementos cruciais para o desenvolvimento integral de qualquer indivíduo.
A beleza do Fliaraxá reside justamente nessa capacidade de ser multifacetado, abraçando diferentes públicos e ritmos literários. Enquanto as crianças se encantavam com narrativas fantásticas, os adultos e jovens leitores tinham a oportunidade de se aprofundar em temas mais complexos e desafiadores. A atmosfera geral era de um grande banquete de ideias, onde cada prato — seja uma oficina prática, um debate acalorado ou uma singela roda de leitura — contribuía para enriquecer o paladar cultural dos presentes. A infraestrutura do festival, com seus diversos espaços como o Auditório da Biblioteca e as salas do Centro Cultural Uniaraxá, permitia que múltiplos eventos acontecessem simultaneamente, criando um fluxo constante de descobertas e aprendizados. Era um verdadeiro labirinto de histórias, esperando para ser explorado por corações e mentes abertas à magia da palavra escrita e falada.
A imagem de jovens visitando a livraria do Fliaraxá, capturada com maestria pela fotógrafa Aline Reis, encapsula perfeitamente essa vitalidade. Não era apenas uma livraria, mas um ponto de encontro, um celeiro de possibilidades, onde cada capa prometia uma nova aventura, um novo conhecimento. O brilho nos olhos desses jovens, a curiosidade em suas expressões ao folhear um livro, é o testemunho mais eloquente do sucesso de um festival literário. Ele vai além das palestras e dos autógrafos; ele cria pontes, acende faíscas e, acima de tudo, celebra a vida através das lentes da literatura. Essa experiência imersiva e gratuita permite que a cultura se democratize, alcançando aqueles que, de outra forma, talvez não tivessem acesso a tal riqueza de conteúdo. O Fliaraxá é, em essência, um convite à cidadania plena, uma ferramenta poderosa para a construção de um futuro mais leitor e, consequentemente, mais consciente e crítico.
O terceiro dia do Fliaraxá destacou-se pela amplitude de sua programação, que se estendeu da valorização da produção local à inserção em discussões de cunho global, tecendo um tapete rico em saberes e perspectivas. A Academia Araxaense de Letras, um pilar da cultura regional, fez sua estreia no festival com uma série de atividades no segundo andar do prédio da biblioteca, oferecendo um espaço privilegiado para a reflexão sobre a literatura local e seus desdobramentos. O início da tarde foi marcado pela “Oficina Aldravias: o mínimo essencial”, conduzida por Erilda Marques Pereira da Rocha. Essa oficina, voltada para uma forma poética concisa e poderosa, ressaltou a riqueza da produção poética e a importância de explorar a linguagem em sua essência mais pura, incentivando a criatividade e a concisão na escrita. A prática das aldravias, com sua simplicidade e impacto, demonstra como a literatura pode ser acessível e, ao mesmo tempo, profundamente significativa.
A Academia Araxaense de Letras também promoveu mesas de bate-papo e uma roda de conversa em homenagem a personalidades importantes. A discussão “Fernando Braga e Agripa Vasconcelos” foi um momento de reverência e celebração, com a presença do próprio Fernando Braga, Autor Homenageado pelo festival, juntamente com Mara Vasconcelos, Maria de Lourdes Bittencourt de Vasconcellos, Hermes Honório da Costa e Bruno Barbosa Borges. Essas rodas de conversa são vitais para preservar a memória literária local, reconhecer a contribuição de autores que moldaram a cultura da região e inspirar novas gerações de escritores. A homenagem a Fernando Braga, em particular, ressalta a importância de olhar para dentro, valorizando os talentos que emergem do próprio solo araxaense, mostrando que a grande literatura nasce também no quintal de casa.
Paralelamente, a programação Nacional/Internacional trouxe para o Auditório da Biblioteca uma dose de arte e reflexão desde as 10h da manhã, com o ator Odilon Esteves apresentando a palestra cênico-literária “Para Abrir Outras Janelas”. A fusão entre teatro e literatura cria uma experiência imersiva, na qual as palavras ganham corpo e voz, abrindo novas perspectivas sobre a leitura e a interpretação. À tarde, a partir das 17h, o Teatro CBMM transformou-se em um epicentro de debates intensos e multifacetados. A autora camaronesa Léonora Miano e o jornalista Jamil Chade deram o pontapé inicial em uma conversa instigante sobre “Cartografias da perda”, um tema que ecoa as complexidades das migrações, das identidades em trânsito e das feridas históricas que moldam o presente. A presença de uma escritora internacional como Miano eleva o nível do festival, trazendo para o público brasileiro uma visão global e crítica sobre questões de profunda relevância.
O palco do Teatro CBMM continuou a receber vozes poderosas ao longo da noite, com nomes como Myriam Scotti, Geni Núñez, Eliane Marques, Taiane Santi Martins, Ale Santos, Fernanda Bastos, Ana Kiffer e Calila das Mercês. Esses escritores e pensadores abordaram uma gama diversificada de temas, todos entrelaçados pela literatura, pela encruzilhada cultural e pela memória. Debates como "Do Silêncio à Voz: literatura entre passado e futuro", "A revolução será poética", "Entre a ficção e a memória" e "Escritas que reinventam o passado" não são apenas discussões acadêmicas; são convites à autoanálise, à reinterpretação da história e à construção de futuros mais justos e conscientes. A diversidade de perspectivas, incluindo a presença de autores que representam diferentes vivências e origens, garante que o Fliaraxá seja um espelho da sociedade contemporânea, refletindo suas angústias, suas esperanças e suas múltiplas formas de expressão.
A programação regional também teve seu merecido destaque, começando ao meio-dia com uma mesa que reuniu jovens talentos como Yasmim Bonfim, João Victor Idaló e Manoelita Chagas, sob a mediação de Talma Macedo. A conversa dos jovens escritores, acompanhada do lançamento do livro “Três Tempos”, ilustra o dinamismo da produção literária emergente e o papel do festival como plataforma para esses novos talentos. A inclusão de atividades com interpretação em Libras, presente nessa e em outras mesas, demonstra o compromisso do Fliaraxá com a acessibilidade e a inclusão. Outras discussões regionais, como “História de um Pescador” e “O livro e a Geração Z”, abordaram temas que vão desde a narrativa oral e a cultura local até os desafios da leitura na era digital. O “Clube do Livro Scholastique Mukasonga / Léonora Miano”, mediado por Rafael Nolli, serviu como um espaço para aprofundar a leitura de autoras africanas, conectando o regional ao internacional de uma forma orgânica e enriquecedora. Finalmente, uma oficina de arte ministrada por Marisa Rufino encerrou a programação regional às 17h, mostrando que a arte e a literatura caminham de mãos dadas, alimentando a criatividade em suas múltiplas manifestações.
O 13º Fliaraxá, que se estendeu de 1º a 5 de outubro no Teatro CBMM do Centro Cultural Uniaraxá, consolidou-se como um evento de notável importância cultural e social. A decisão de oferecer todas as suas atividades gratuitamente é um dos pilares que sustenta o sucesso e o impacto do festival. Em um país com tantas disparidades sociais, a gratuidade é um ato de democratização cultural fundamental, garantindo que o acesso à literatura e aos debates intelectuais não seja um privilégio, mas um direito de todos. Essa abordagem abre as portas para públicos diversos, desde estudantes e famílias de baixa renda até entusiastas da leitura que buscam aprofundar seus conhecimentos sem barreiras financeiras. A imagem de pessoas de todas as idades e origens circulando pelos corredores, participando ativamente dos debates e se encantando com as exposições, é a prova cabal de que a cultura, quando acessível, floresce e transforma.
Além da inclusão social, a gratuidade do Fliaraxá também reforça o papel do festival como um polo de irradiação de conhecimento e inspiração. Ao longo dos cinco dias, a programação foi cuidadosamente elaborada para oferecer uma experiência rica e diversificada: mesas de conversa com escritores renomados, lançamentos de livros que trazem novas vozes e perspectivas, premiações de redação que incentivam a escrita entre os jovens, atividades lúdicas para as crianças que acendem a paixão pela leitura e apresentações musicais que embalam e enriquecem a atmosfera cultural. Cada uma dessas iniciativas contribui para um ecossistema cultural vibrante, onde a literatura não é vista como algo distante ou acadêmico, mas como uma parte integrante e pulsante da vida cotidiana.
A longevidade e o sucesso do Fliaraxá não seriam possíveis sem o apoio de parceiros estratégicos. Há 13 anos, a CBMM tem sido a principal patrocinadora do Festival Literário Internacional de Araxá, viabilizando sua realização por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura. Esse tipo de parceria público-privada é essencial para a manutenção de eventos culturais de grande porte, demonstrando um compromisso com o desenvolvimento social e educacional das comunidades. A Bem Brasil, como parceira adicional, e o apoio cultural do Centro Cultural Uniaraxá, da TV Integração e da Academia Araxaense de Letras, completam o quadro de uma rede de colaboração que acredita no poder da cultura como motor de transformação. Essas instituições não apenas fornecem os recursos necessários, mas também amplificam a visibilidade do festival, garantindo que sua mensagem e suas atividades alcancem um público ainda maior.
O legado do Fliaraxá transcende os dias de sua realização. Ele se manifesta no sorriso das crianças que descobriram um novo autor, na inspiração dos jovens que participaram dos concursos de redação, na profundidade das reflexões que permearam os debates, e na conexão que se estabeleceu entre autores e leitores. O festival deixa uma marca indelével na memória cultural de Araxá e de Minas Gerais, reafirmando que a literatura é uma janela para o mundo, um espelho para a alma e uma ferramenta poderosa para a construção de um futuro mais informado, empático e criativo. É um lembrete anual de que, em meio à agitação do cotidiano, há sempre um espaço para a beleza das palavras e a riqueza das ideias.