Estamos na era da tecnologia, imersos em um mar de informação, moldados por algoritmos que constroem nossas bolhas e percepções de mundo. Essas tecnologias, contudo, não são neutras. Pertencem a grandes corporações, não ao povo, e não estão sujeitas ao controle de governos eleitos. Diante desse cenário, surge a discussão sobre os limites da Inteligência Artificial (IA), especialmente a generativa, capaz de produzir conteúdo escrito, imagens e, em breve, vídeos, áudios, teses, programação e novos aplicativos a partir de comandos de voz. Novas soluções para a humanidade, sim, mas soluções que emergem e residem nas mãos de grandes empresas, sem nosso controle efetivo. Qual o problema disso?

A história da datilógrafa ilustra o paradoxo da produtividade. Há 40 anos, seu ingresso no mercado de trabalho se limitava a essa profissão. Com a chegada das máquinas de escrever elétricas, sua velocidade de trabalho aumentou, mas sua remuneração e condições de vida permaneceram estagnadas. O mesmo aconteceu com a chegada dos computadores pessoais. Agora, com o advento da IA generativa, a situação se repete. A tecnologia proporciona ganhos de produtividade, mas esses ganhos se concentram nas mãos de poucos, não beneficiando a humanidade como um todo, como ocorreu com a calculadora, por exemplo. Não há uma aldeia só com caciques. A tecnologia transforma nossa relação com o trabalho e com o conhecimento, como a calculadora fez com a matemática. A IA generativa faz o mesmo com o texto, com a escrita, com o raciocínio humano expresso em palavras. A questão é: para quem serve essa produtividade?
A IA generativa, a tecnologia mais rapidamente adotada na história, pode se tornar uma ferramenta de ditadura, ditando o texto e o pensamento. Ou pode ser uma elaboradora de perguntas, pois a lógica atual exige perguntas bem formuladas para obter resultados adequados. A tecnologia descarta algumas atividades, mas incorpora outras. Não é a tecnologia digital avançada dos últimos 30 anos a responsável pelo agravamento das condições de vida e pela desigualdade econômica. A raiz do problema reside na má distribuição dos bens gerados pelo trabalho e pela tecnologia. É nesse ponto crucial que nos encontramos agora, à beira de uma ruptura significativa.
A IA generativa demanda um raciocínio complexo para extrair o melhor da ferramenta. Quem fará as perguntas? O dono da mais-valia, aquele que controla os meios de produção. A resposta já estará implícita na pergunta. Não sei se viverei para testemunhar essa circunstância, e se o fizer, não será com alegria. Não desejo ver o futuro como uma distopia, um "Admirável Mundo Novo", um "2001: Uma Odisseia no Espaço", ou um "Blade Runner". Mas não descarto essa possibilidade, a desqualificação do trabalho pessoal, a perda da individualidade diante da máquina. O fundador do ChatGPT, em uma entrevista, afirmou que a empresa está contratando filósofos para fazer as perguntas à IA. Ironia do destino: a Filosofia, a arte de questionar, valorizada em um mundo dominado pela tecnologia. Fora da bolha tecnológica, talvez essa percepção ainda não seja clara.
A história nos oferece narrativas que exploram essa relação complexa com a tecnologia, como "O Aprendiz de Feiticeiro", de Goethe. Podemos escolher nossos caminhos. A tecnologia pode ser útil, como os buscadores da internet, mas não devemos nos entregar inocentemente. Assim como eu cruzo fontes e questiono informações, devemos encarar a tecnologia com um olhar crítico, conscientes de suas limitações e vieses. O futuro da tecnologia é incerto. Carros autônomos, aviões sem pilotos, elevadores sem ascensoristas – a automação avança em ritmo acelerado. Em breve, cirurgias serão auxiliadas por óculos de realidade aumentada. As próximas gerações se perguntarão como era o mundo sem essas tecnologias, assim como hoje nos perguntamos como era a vida sem computadores, celulares ou e-mail. Será que éramos mais felizes? Não necessariamente. A nostalgia muitas vezes distorce o passado, criando memórias idealizadas de um tempo que talvez não tenha sido tão bom quanto imaginamos.
A tecnologia avança, e com ela surgem novas possibilidades e desafios. É preciso estar atento, questionar, refletir e, acima de tudo, buscar uma distribuição justa dos benefícios gerados pelo trabalho e pela tecnologia, para que o futuro não seja uma distopia reservada a poucos, mas um horizonte de progresso compartilhado por todos.