Em um mundo cada vez mais moldado pela tecnologia, nos deparamos com um paradoxo: enquanto celebramos os avanços da inteligência artificial e da robótica, uma geração de jovens se vê imersa em um mar de incertezas quanto ao seu futuro profissional. A fala impactante de Christine Lagarde em Davos, em 2018, ecoa essa preocupação: "Não estamos a vigiar o futuro dos jovens, mas sim a destruí-lo". Embora tenha passado despercebida por muitos, essa afirmação traz à tona uma realidade alarmante sobre a crescente pobreza entre os jovens e a necessidade urgente de repensarmos o papel da tecnologia em nossas vidas.
Dados do FMI revelam um cenário preocupante: a pobreza entre os jovens dobrou durante o período de ajustamento econômico, enquanto a pobreza entre os maiores de 65 anos caiu pela metade. Essa inversão demonstra uma transferência intergeracional de riqueza que compromete o futuro de toda uma geração. A estabilidade geral dos índices de pobreza mascara a dura realidade dos jovens entre 15 e 26 anos, que enfrentam dificuldades crescentes para ingressar no mercado de trabalho e construir uma vida digna.
Lagarde usa a metáfora de um poema de Fernando Pessoa para ilustrar essa situação: "Será um sonho adiado? Será como uma uva que filia ao sol quente?". A incerteza paira sobre o futuro dos jovens, permeado por um medo constante quanto ao emprego, à competição e à própria sobrevivência em um mercado de trabalho cada vez mais instável.

A metade dos jovens europeus trabalha em empregos não tradicionais, caracterizados pela precariedade e pela falta de segurança. Essa realidade desafia o paradigma do emprego estável ao longo da vida, ao qual gerações anteriores estavam acostumadas. O crescimento da "gig economy", com seus trabalhos temporários e plataformas digitais, contribui para a instabilidade financeira dos jovens, mantendo-os em situação de pobreza mesmo com o aumento do nível de emprego.
Enquanto a tecnologia avança a passos largos, com carros autônomos e serviços automatizados, surge a questão: o que faremos com os motoristas de táxi, caminhoneiros e outros profissionais cujas funções serão substituídas por máquinas? O entusiasmo com a inovação não pode nos cegar para o impacto social dessas transformações. É preciso pensar em soluções para requalificar e realocar esses trabalhadores, evitando que sejam deixados para trás.
O relatório inicial sobre o impacto da tecnologia no mercado de trabalho previa que 47% dos empregos seriam afetados. Estudos mais recentes, embora apontem para números menores, ainda indicam perdas significativas de postos de trabalho. Esse cenário potencialmente catastrófico exige uma resposta proativa da sociedade, que não pode se deixar levar por extremismos tecnofóbicos ou tecnofílicos. A chave está em encontrar um equilíbrio, enxergando a tecnologia como uma oportunidade para melhorar a vida das pessoas, e não como uma ameaça à sua existência.
Diante desse cenário de transformações rápidas e imprevisíveis, a educação precisa ser repensada. Não basta formar profissionais com habilidades técnicas específicas para o mercado de trabalho atual. É fundamental desenvolver competências que preparem os jovens para se adaptarem a um futuro incerto, onde a criatividade, a resolução de problemas e a capacidade de aprender continuamente serão essenciais.
Precisamos ir além do desenvolvimento de habilidades técnicas e focar na formação de cidadãos ativos, responsáveis e empáticos. A educação deve promover a capacidade de trabalhar em grupo, a solidariedade e a preocupação com o bem-estar coletivo. Em vez de formarmos apenas profissionais para o mercado de trabalho, devemos formar seres humanos completos, capazes de construir uma sociedade mais justa e sustentável.
O desafio que se apresenta é o de desenhar uma nova antropologia para a era digital, colocando o ser humano no centro das preocupações. A tecnologia deve estar a serviço das pessoas, e não o contrário. É preciso questionar o que realmente interessa ao ser humano e usar a tecnologia para promover o seu desenvolvimento integral. Reformas legislativas, políticas sociais e uma mudança de valores nas empresas são necessárias para garantir que a tecnologia seja uma força propulsora de um futuro melhor para todos, e não apenas para alguns privilegiados.
A urgência da situação exige que cada um de nós se torne um advogado e embaixador dessa causa. Precisamos repensar o mundo em que vivemos e o nosso papel como cidadãos, filhos e pais, para garantir que as gerações futuras não sejam privadas de seus sonhos e tenham a oportunidade de construir um futuro digno e próspero. A internet das coisas deve se tornar a internet das pessoas, e a inteligência artificial deve estar a serviço da inteligência humana, na construção de um mundo melhor e mais responsável.