A década de 1990 viu um frenesi em torno da internet, com empresas mudando seus nomes para incluir ".com" ou "internet" na esperança de atrair investidores. Muitas dessas empresas não tinham negócios realmente relacionados à internet, mas a mera menção do termo era suficiente para impulsionar seus preços de ações.
A Securities and Exchange Commission (SEC) dos EUA, preocupada com essa tendência, alertou os investidores para não investirem apenas em um nome, pois isso seria pedir para perder dinheiro.
Hoje, vemos algo similar com a IA. A menção da IA em relatórios de lucros de empresas disparou, com empresas de todos os setores clamando sua utilização para aumentar o valor de mercado. Mas, como na bolha ".com", há sinais de exagero e até mesmo de engano.
A SEC já investigou e multou duas empresas que alegavam utilizar IA em seus produtos e serviços, mas na realidade não o faziam. Essas empresas utilizavam frases vazias, como "converter dados pessoais em uma fonte renovável de capital investível" ou "analisar dados coletivos para tomar decisões inteligentes de investimento", sem oferecer uma explicação real de como a IA era utilizada.
A IA, por si só, é uma tecnologia real e com potencial para revolucionar diversos setores. Mas, é crucial diferenciar as empresas que realmente utilizam a IA de forma inovadora e eficaz das que apenas usam o termo como uma estratégia de marketing.
A IA não é um conceito novo. Existem diversas aplicações da IA em setores como finanças, saúde, segurança e até mesmo em softwares que utilizamos diariamente, como filtros de spam e algoritmos de recomendação.
O recente hype em torno da IA foi impulsionado pela popularização de ferramentas como o ChatGPT, que passou o Teste de Turing, um teste que visa determinar se uma máquina consegue imitar a inteligência humana.
Apesar de ser um marco importante, o Teste de Turing não garante que uma máquina seja realmente inteligente. O ChatGPT, por exemplo, é capaz de gerar textos convincentes, mas não possui consciência, compreensão ou sentimentos.
É essencial analisar criticamente as empresas e produtos que se anunciam como "IA" e procurar entender como a IA está sendo utilizada de forma concreta, qual a real aplicação da tecnologia e quais os benefícios que ela proporciona.
A busca por lucro rápido tem levado algumas empresas a criar produtos e serviços "AI-washed" — produtos com a marca de IA, mas sem nenhuma tecnologia real por trás.
Alguns exemplos incluem dispositivos como o Rabbit R1, que promete ser um dispositivo de IA portátil, mas na realidade se baseia em scripts pré-programados e no ChatGPT. Além disso, empresas como a Expensify foram acusadas de utilizar trabalhadores humanos para digitalizar recibos, fingindo que a tarefa era realizada por IA.
A busca por lucro rápido e o hype em torno da IA também levam a investimentos em áreas que podem não gerar retorno a curto prazo. A corrida para investir em IA e computação quântica pode levar a um cenário onde a tecnologia é superestimada e investimentos são direcionados para projetos sem viabilidade real.
A IA tem um potencial enorme, mas é fundamental manter uma perspectiva cautelosa. É importante lembrar que a IA é uma ferramenta, e como qualquer ferramenta, pode ser usada para o bem ou para o mal.
É essencial que as empresas sejam transparentes sobre como utilizam a IA, que os investidores sejam céticos em relação a promessas exageradas e que os reguladores atuem para evitar o abuso da tecnologia.
A IA tem o potencial de melhorar nossas vidas de diversas formas, mas é preciso cuidado para que essa promessa não se transforme em uma nova bolha, como aconteceu com a internet nos anos 90.