Recentemente, enfrentei uma situação complexa envolvendo arte gerada por inteligência artificial (IA) em um dos meus produtos, o baralho “Livro das Chances”. O lançamento foi recebido com críticas e questionamentos sobre a utilização de IA na criação das ilustrações, levantando preocupações válidas sobre o impacto dessa tecnologia no trabalho dos artistas. Gostaria de esclarecer os fatos, assumir a responsabilidade pelos meus atos e abrir um diálogo construtivo sobre o tema.

A ideia inicial do “Livro das Chances” não incluía ilustrações. O baralho foi concebido como uma ferramenta de inspiração musical, com cada carta contendo frases inspiradoras, símbolos de acordes, ritmos e notas. Posteriormente, decidi adicionar arte a cada carta para torná-las mais especiais. Em 2021, antes da popularização da arte gerada por IA, contratei o artista Scott por seu estilo surrealista, que me agradava. Na época, as ferramentas de IA para geração de imagens a partir de texto ainda não existiam. Minha intenção era valorizar o trabalho de um artista humano, remunerando-o adequadamente e dando-lhe o tempo necessário para criar as ilustrações.
Scott utilizava imagens de terceiros, editadas e manipuladas com Photoshop, em seu processo criativo. Confirmei com ele a legalidade do uso desses recursos em um produto comercial e ele me garantiu que utilizava apenas imagens de bancos de imagens livres de royalties. Com a explosão da arte por IA, questionei Scott sobre sua utilização nas ilustrações. Ele descreveu um uso mínimo da tecnologia, o que me levou a acreditar que o trabalho continuava sendo predominantemente manual, já que ele vinha produzindo arte com o mesmo estilo meses antes das ferramentas de IA surgirem.
O problema surgiu com o lançamento do “Livro das Chances”. Muitos interpretaram as ilustrações como sendo totalmente geradas por IA. O estilo, com alto nível de detalhe, linhas suaves e elementos surreais ou irreais, reforçava essa percepção, gerando a acusação de que eu estava substituindo o trabalho de um artista por IA para economizar. Diante das críticas, voltei a conversar com Scott, que me explicou detalhadamente o processo de criação de cada carta, mostrando o que era IA, o que era imagem de banco de imagens e afirmando que nenhuma ilustração era totalmente gerada por IA. Solicitei a ele uma gravação de tela de seu processo para entender como imagens que poderiam ser interpretadas como geradas por IA poderiam ser criadas por manipulação de imagens de bancos de imagens e colagens surreais.
A situação me fez refletir sobre a complexidade do tema e os desafios que a IA impõe ao mundo da arte. Acredito que duas coisas contraditórias podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: a IA pode matar a criatividade e, simultaneamente, fomentá-la. Por um lado, ela facilita a produção de conteúdo, podendo levar à preguiça e à desvalorização do trabalho artístico manual. Por outro, pode ser uma ferramenta poderosa para gerar inspiração, explorar novas perspectivas e automatizar tarefas repetitivas, permitindo que artistas se dediquem aos aspectos mais criativos de seu trabalho. O importante é como a tecnologia é utilizada. Assim como com loops musicais, o valor da arte reside na criatividade e na expressão humana, não na ferramenta utilizada.
Reconheço que a IA está impactando o mercado de trabalho, inclusive o meu. Serviços de streaming podem estar utilizando música gerada por IA para reduzir custos com artistas, e a concorrência por atenção nas redes sociais é cada vez maior com o aumento do conteúdo gerado por IA. No entanto, não sou contra a tecnologia. Assim como a música digital e a internet transformaram a indústria musical, criando novos desafios e oportunidades, acredito que a IA também pode ser benéfica se utilizada de forma ética e responsável. Ferramentas que permitem aos artistas treinarem modelos com seu próprio trabalho, por exemplo, podem aumentar a produtividade e até mesmo gerar novas oportunidades.
A questão do treinamento de modelos de IA com propriedade intelectual sem consentimento é outro ponto crucial. Concordo que os artistas devem ter o direito de decidir se permitem que seus trabalhos sejam usados para treinar algoritmos e devem ser compensados por isso. Entendo a preocupação com a facilidade com que a IA pode reproduzir estilos artísticos, mas também reconheço a complexidade do debate sobre direitos autorais nesse novo contexto tecnológico. A analogia com a aprendizagem humana, a fotografia e o desenvolvimento do MP3 ilustram a dificuldade em definir os limites da legalidade e da ética no uso da IA para fins criativos.
O futuro da arte e da criatividade diante da IA é incerto, mas acredito que a arte genuína sempre encontrará seu espaço. A tecnologia pode mudar a forma como a arte é criada e consumida, mas a essência humana da criação artística continuará a ser valorizada.