Muito se fala sobre a iminente substituição de empregos pela inteligência artificial, com manchetes alarmantes e relatórios prevendo perdas massivas de postos de trabalho. Mas será que essa narrativa catastrófica reflete a realidade da automação e dos modelos de linguagem atuais? Este artigo propõe uma análise mais crítica da situação, comparando a substituição de profissionais qualificados por ferramentas generativas à experiência de se deparar com uma "feijoada vegetariana" quando se espera o prato tradicional brasileiro.

A automação e a substituição de trabalho manual por máquinas não são novidade. O livro "Blood in the Machine", de Brian Merchant, detalha o início da Revolução Industrial e a resistência dos luditas à mecanização da produção têxtil. Assim como os artesãos da época viram seu trabalho artesanal ser copiado e substituído por máquinas, hoje, artistas e outros profissionais se deparam com ferramentas de IA generativa que reproduzem seus estilos e ameaçam suas oportunidades de emprego. A questão central levantada pelos luditas não era a tecnologia em si, mas sim a forma como ela era implementada, precarizando as condições de trabalho e diminuindo os salários. Esse paralelo histórico nos ajuda a compreender a atual preocupação com a IA, não como um medo irracional do novo, mas como uma crítica à potencial desvalorização do trabalho humano.
A "feijoada vegetariana" serve como metáfora para essa substituição "meia-boca". Para quem nunca experimentou uma feijoada tradicional, a versão com vegetais pode ser satisfatória. Da mesma forma, para quem não compreende a complexidade de certas profissões, a produção de uma IA generativa pode parecer "boa o suficiente". Entretanto, a qualidade e a profundidade do trabalho original são sacrificadas em nome da rapidez e da economia. A ameaça real não é a substituição completa, mas a aceitação de um produto inferior como substituto adequado, empobrecendo a experiência tanto para o profissional quanto para o consumidor final.
Apesar dos avanços, as IAs generativas, como o ChatGPT e similares, ainda estão longe de serem inteligentes. Elas não raciocinam, não compreendem o mundo real e, frequentemente, produzem resultados inconsistentes e imprecisos, como demonstrado em estudos que testaram sua capacidade de resolver problemas lógicos simples. A complexidade crescente desses modelos não garante maior precisão, mas sim uma maior capacidade de "confabular", criando respostas plausíveis, porém errôneas, que são mais difíceis de detectar por usuários menos experientes.
A promessa de aumento de produtividade com o uso de IAs generativas esbarra em desafios práticos. A inconsistência das respostas, a necessidade de constante verificação e a dificuldade em integrar dados proprietários geram mais trabalho do que economia em muitos casos. Além disso, o custo real de operação desses sistemas, atualmente subsidiados por grandes empresas, ainda é desconhecido e pode representar um obstáculo significativo para sua adoção em larga escala.
A substituição de empregos por IA é um processo complexo e, provavelmente, mais lento do que muitos preveem. No entanto, a ameaça da desvalorização do trabalho qualificado é real. A chave para navegar nesse cenário é a conscientização: compreender as limitações das ferramentas de IA e valorizar a expertise humana. Assim como um apreciador de feijoada reconhece a diferença entre o prato tradicional e uma imitação, devemos ser críticos em relação à qualidade do trabalho produzido por máquinas e defender o valor da criatividade, do raciocínio e da experiência humana.